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Vaca Muerta e a chave amigo/inimigo


O tema central deste início de ano para a comunidade brasileira de infraestrutura energética, sem dúvida tem sido a possibilidade de investimento brasileiro na construção do gasoduto dos campos de petróleo e gás de Vaca Muerta, na Argentina. Infelizmente a discussão sobre o tema, importante e multifacetado, parece estar sendo tratado pela maior parte da imprensa brasileira como uma questão simples que pode ser resolvida numa chave amigo/inimigo.


Embora o problema de tratar temas complexos de forma pouco abrangente não seja novo na imprensa o quadriênio 2019-2022, diante de um Governo Federal que hostilizava abertamente jornalistas, parece ter revigorado a necessidade de profissionais da área rapidamente identificarem se uma pauta é sobre uma “coisa majoritariamente boa” ou uma “coisa majoritariamente ruim”. E aqui não se trata de “acusar” veículos de estarem quebrando algum tipo de imparcialidade jornalística ao fazerem isso. Ao cobrirem algo como a invasão das sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro por pessoas que clamavam por “intervenção militar” ou similares, o que se espera do jornalismo é justamente que aponte de forma clara que se trata de uma tentativa de golpe de Estado, por exemplo. É diferente quando essa identificação amigo/inimigo é feita de forma imediata para balizar a cobertura das tratativas Brasil-Argentina sobre um assunto tão cheio de camadas quanto a possibilidade de financiamento via BNDES do Gasoduto Néstor Kirchner.


Os veículos da imprensa tradicional parecem ter rapidamente virado a chave para o modo “inimigo”, frequentemente apresentando as questões ambientais relacionadas ao tema. Essas questões passam pelos diversos passivos ambientais das tecnologias de fracking/fraturamento hidráulico, que incluem o risco de contaminação de aquíferos, e também – ainda que esse ponto tenha aparecido com bem menos frequência – pela luta dos indígenas Mapuche pela demarcação de suas terras. O contexto, combinado à reação da Ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, inclusive evocam paralelos à disputa sobre a construção da Usina de Belo Monte que envolveu a mesma Marina contra a então Ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff.


Ambas as preocupações são essenciais para pautar o assunto, ainda que o histórico da maioria desses veículos de demonizar os financiamentos do BNDES em outros países indique que elas podem não ser realmente a motivação central para o posicionamento. Entretanto, quando colocadas assim sem um contexto mais amplo, passa-se a ideia de que o fato de o Brasil, através do BNDES, financiar ou não a obra do gasoduto é elemento central para definir a existência desses problemas. E aqui entra o outro lado da moeda.


Talvez como uma reação a essa postura de tratar a possibilidade de financiamento do gasoduto automaticamente como “inimigo”, postura inclusive benéfica ao país que mais exporta gás no mundo e que é um amplo utilizador do fraturamento hidráulico, os Estados Unidos, alguns veículos da imprensa alternativa que se posicionam como anti-imperialistas parecem ter também resolvido colocar o projeto sob a etiqueta de “amigo”. Mais do que isso, parecem tratar todos os questionamentos sobre o tema como tentativas de promover uma agenda estadunidense contrária à integração entre as economias latino-americanas. Os argumentos que usam para tal incluem, por exemplo, o fato de que o uso do fracking na extração seguirá acontecendo com ou sem o gasoduto para escoamento e que a escassez de gás natural que esse projeto pretende atender pode levar ao uso de combustíveis mais poluentes, como o carvão mineral, se não remediada.


Em ambos os casos, veículos de imprensa costumam ter um escudo bastante conveniente contra questionamentos. Salvo quando os argumentos são dados por jornalista especialista na cobertura de energia e/ou meio ambiente, normalmente são fornecidos por especialistas, que podem ser cientistas da área ou outros agentes envolvidos nesses campos. É entretanto um escudo falacioso, afinal esses temas raramente são consensuais dentro dessas comunidades, e optar por apresentar apenas parte do contexto empobrece profundamente a discussão. E a ideia aqui não é dizer que “ambos os lados são igualmente válidos”, apenas que mesmo quando for para se posicionar totalmente contra ou a favor de algo, é preciso entender quais os argumentos que estão do outro lado.


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