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O “Xisto 2.0” e a estratégia geopolítica estadunidense baseada no gás natural

Atualizado: 16 de jan. de 2023

Por meio da exploração do shale gas, os Estados Unidos (EUA) implementaram sua estratégia de reposicionamento energético, visando dar a competitividade perdida ao seu setor produtivo interno e, especialmente, promover a configuração de uma uma nova ordem espacial própria através da exportação do insumo via Gás Natural Liquefeito (GNL).


Depois de 2012 o shale gas (gás de xisto) passar a superar o gás não associado na extração de gás natural (GN) no território estadunidense. O período é marcado também pelo forte crescimento da produção total do insumo, acima dos 30% em 2018 quando comparado com 2011. Além disso, em 2016, o país que, no período de 1998 a 2011, foi importador de GNL (22,663 bilhões de m³ realizado em 2007), passa a exportar mais que importar (2017). Os EUA movimentaram 42,493 bilhões de m³ em 2018 (EIA, 2019), o que correspondeu a 5,17% do consumo interno total de GN: de 821,7 bilhões de m³. No mesmo ano, o Brasil produziu 25,6 e consumiu 35,9 bilhões de m³ de GN (BP Group, 2022).


Coreia do Sul, México, Japão e China são as principais nações que importam o gás do EUA. Os países asiáticos compram GNL e o México adquiri o insumo principalmente através de gasodutos de transporte. São oito terminais marítimos de liquefação de gás em operação na costa estadunidense, todos eles pertencentes a diversas empresas privadas que investiram nas infraestruturas de forma associada.

Esses números não se formaram aleatoriamente ou na dinâmica do "mercado livre", mas revelam uma forma particular de fortalecer a relação de subordinação imposta pelos EUA às demais nações do mundo pelo uso do GN como instrumento de configuração de seu domínio energético. Uma estratégia desenhada para construção de uma nova ordem espacial própria com um campo de influência de grande dimensão, considerando o potencial alcance do GNL (MACÍAS, 2021). Nos casos da América Central e Canadá, houve uma imediata atuação através de gasodutos de transporte.


A exploração do shale gas é uma nova técnica considerada não convencional de exploração em terra, além de controversa pelos seus efeitos ambientais. No modelo dos EUA possibilita a intervenção no mercado mundial de GNL, não se restringindo somente à modificação dos fluxos globais de energia fóssil como um meio de impor uma dinâmica expansiva nessa nova indústria que suporta a produção local de energia fóssil e funciona como suporte material desse domínio. Um elo fundamental na disputa pela hegemonia econômica mundial (MACÍAS, 2021).


Esse movimento fez parte do planejamento estatal do país, sob a égide dos oligopólios. O programa Xisto 1.0 (MILLS, 2015 apud MACÍAS, 2021) do início do século XX incentivou financiamentos bancários e formação de fundos de investimentos criando um grupo de capital especulativo diverso para desenvolvimento da nova técnica e de projetos potenciais. Na metade do caminho para o século XXI, pressionado pela queda de preços internacionais na indústria de O&G, cria-se o Xisto 2.0. O segundo programa aumenta e dá velocidade produtiva na produção e faz crescer, entre 2003 e 2013, de 50 para 250 as patentes anuais de fraturamento hidráulico (CAHOY et al., 2013 apud MACÍAS, 2021) —uma mercadoria de destacada importância para o capital industrial interno pelo seu valor de uso, que auxilia no processo de acumulação de empresas do setor energético que o extraem, processam e comercializam, e permite ainda o desenvolvimento de uma soberania energética pelo volume potencial dos campos de exploração.

Além da construção de uma rede de influência própria, a estratégia considera também deslocar a rede de alcance de concorrentes diretos dentro desse sistema energético. Na atualidade, vimos a resistência histórica dos EUA com a construção do gasoduto de transporte russo Nord Stream 2 (NS2). A nova rede representaria uma nova opção de rota de oferta de gás natural à Alemanha. Uma realidade que coloca o GN também como pano de fundo da relação Rússia-Ucrânia (ESTRELLA, 2022).


Com o conflito, a Alemanha enxerga o gasoduto como de caráter mais político do que econômico, mesmo que a infraestutura ampliasse o abastecimento da Europa a preços mais competitivos que o GNL. Em 2022, essa realidade é agravada com os ataques submarinos sofridos pelos gasodutos NS1 e NS2 —a Rússia acusou publicamente o Reino Unido do atentado que explodiu seus equipamentos, fato que foi repelido pela nação insular do Noroeste da Europa.


A sabotagem aos gasodutos russos ocorre quando um novo corredor de abastecimento de gás no Canal do Báltico, da Noruega para a Polônia é definido (ESCOBAR, 2022). Como efeito imediato, a Alemanha construiu seu primeiro terminal de importação gás líquido, zerou a importação de gás russo e baseará neste ano um terço do seu consumo interno na importação de GNL (ESTRELA, 2023).


Estes acontecimentos materializam uma realidade histórica identificada por Rangel (1982), que expõe a resistência de países em se engajarem nas operações interacionistas no seio de blocos socialistas. Na década de 1980, o projeto de gasoduto que ligaria a Sibéria Ocidental à França na década não saiu do papel por essa mesma resistência. Fato que expõe também a atenção dadas à expansão das relações Euroásia, em especial com o crescimento destacado da China nas últimas décadas que inlcui a forte ampliação do gás natural na sua matriz —o consumo do insumo salta neste país não produtor de 1,1 bilhão de m³ em 1965 para 8,9 (1975), 13 (1985), 17,9 (1995), 47 (2005), 194,7 (2015) e 378,7 bilhões em 2021.


O gás natural na geopolítica mundial mostra que os EUA se comportam como um país dominante desse setor em diversos quesitos, baseados no seu mercado interno e na influência via relações internacionais. Os estadunidenses exercem importante domínio em países produtores e usam da nova tecnologia como forma de superar a questão da competitividade pelo preço da energia como um fator central para a composição como país exportador. Uma realidade do modo de produção que acaba freando, conforme coloca Mamigonian (2018), a expansão de investimentos em energias alternativas, priorizando esforços na produção de combustíveis fósseis na lógica das grandes corporações que os exploram e os produzem.


A partir desse contexto apresentado, percebe-se que o domínio energético se posiciona como referência de hegemonia material. Contribuindo com a reprodução de uma unidade territorial de acumulação de capital a partir da capacidade técnica de apropriação, que acaba por convergir com a tentativa de formação de uma hegemonia econômica mundial (MACÍAS, 2021).


Referências:

BP GROUP - Statistical Review of World Energy. 2022. 71 ed.

CAHOY, Daniel; GEHMAN, Joel; LEI, Zhen. Fracking Patents: The Emergence of Patents as Information-Containment Tools in Shale Drilling. Michigan Telecommunications and Technology Law Review, v. 19, n. 2, 2013, p. 279-330. EIA - Energy Information Administration. Natural Gas Summary. 2019.

ESCOBAR, Pepe. Germany and EU have been handed over a declaration of war. Press TV. 28 set. 2022. Disponível em: https://www.presstv.ir/Detail/2022/09/28/690009/Germany-EU-have-been-handed-over-declaration-of-war.

ESTRELLA, Leonardo Mosimann. Os gasodutos russos e a divisão internacional do trabalho. Vision Gas. Opinião. 4 abr. 2022. Disponível em: https://www.visiongas.org/post/os-gasodutos-russos-e-a-divisão-internacional-do-trabalho.

ESTRELLA, Leonardo Mosimann. Alemanha implanta terminal de GNL em tempo recorde. Vision Gas. Opinião. 10 jan. 2023. Disponível em: https://www.visiongas.org/post/alemanha-implanta-terminal-de-gnl-em-tempo-recorde.

MACÍAS, Luis Fernando Pérez. La estrategia de Estados Unidos para la exportación de gas natural licuado y su proyecto de configuración de un dominio energético. Norte América, Año 16, n. 1, ene-jun 2021.

MAMIGONIAN, Armen. O Mundo no final do século XX e início do século XXI. Boletim Paulista de Geografia, n. 100 (Edição Comemorativa), p. 173-205, 2018.

MILLS, Mark. Shale 2.0 Technology and the Coming Big-data Revolution in America's Shale Oil Field. Energy Policy & The Environment Report. Center for Energy and the Environment, Manhattan Institute. N. 16. 2015.

RANGEL, Ignacio de Mourão. A Polônia e o Ciclo Longo. Encontros com a Civilização Brasileira, v. 29, n. 11, p. 21-32, 1982.

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