top of page

Gás Natural na Alemanha e o problema ferroviário

O gás natural desempenha papel importante na matriz energética da Alemanha, como a segunda fonte de energia primária em participação atrás apenas do petróleo. Sua infraestrutura de rede soma 511 mil quilômetros, o que significa cerca de 15 vezes a malha de gás instalada no território brasileiro.


No país Europeu, prevalece a atuação de inúmeros agentes privados em operações de armazenamento e de rede e na intermediação de negociação da oferta do insumo. Anteriormente, eram dois mercados geridos pela NCG e Gaspool, empresas que se fundiram para formar a Trading Hub Europe que agora coordena o acesso às redes de gás e as atividades de eficiência do sistema.


No total, o país possui 16 empresas operadoras de sistemas de transporte, dezenas no sistema de distribuição e instalações de armazenamento e que realizam a gestão comercial do mercado. Quando operadores privados de rede utilizam terras públicas para instalar e operar gasodutos, devem pagar taxas de concessão à autoridade local correspondente. Esta estrutura faz à intersecção entre regulação, operadores privados e infraestrutura.


Mesmo com uma estrutura bem desenvolvida e regulada de forma centralizada, a Alemanha tem enfrentado desafios na cadeia do gás. A demanda caiu 12% em 2022, parcialmente devido à maior eficiência do seu sistema, realidade que se somou aos efeitos do conflito Rússia-Ucrânia na conjuntura do ataque aos gasodutos russos Nord Stream 1 e 2. Com isso, o país, que acabara de descontinuar suas usinas nucleares e tem a exploração de shale gas proibida (fracking), ampliou a importação de GNL (Estados Unidos), passou a utilizar estruturas de regaseificação de nações vizinhas (Países Baixos e França) e voltou a instalar novos terminais de importação. Na outra ponta do Nord Stream, o gás russo passa a ser direcionado ao mercado da China, que na última década alcançou o Japão na importação de GNL, liderando as relações comerciais de gás, e investiu nas maiores infraestruturas de armazenamento e estoque, objetivando a redução do papel do carvão na sua matriz.


Estes movimentos ressaltam a interdependência entre políticas públicas, tipos de mercado e regulamentação no setor de energia. Além disso, o "Estado Empreendedor", conforme debate Mariana Mazucatto, desempenha papel crucial nesse contexto. Devido principalmente a quatro conceitos: (i) assumir risco de investimentos incertos; (ii) direcionamento da inovação (atualmente necessitando de foco ambiental); (iii) criação de valor pelo fomento e modelagem de novos mercados; e (iv) desenvolvimento de parcerias público privadas (PPP). No xadrez geopolítico a decisão de encerrar as importações do gás russo impactou a economia do país, que passou a adquirir o insumo a preços mais onerosos dos Estados Unidos, e exigiu também que sua política de transição energética fosse impactada pelo retorno do despacho através de térmicas a carvão.


Os Estados Unidos, embora considerados no senso comum como líderes na aplicação de conceitos de Mazucatto em tecnologia e inovação, não absorvem a porção referente à transição para sustentabilidade, buscando perpetuar os sistemas sócio-técnicos como existem atualmente. O exemplo mais recente desta perpetuação, relacionada aos investimentos no setor de gás, é o projeto de US$ 10 bilhões executado em Nova Orleans (Louisiana) para expansão da instalação Calcasieu Pass.


Trata-se de um dos maiores sistemas de GNL já existentes no mundo. Esta expansão, pautada no suprimento do mercado Europeu tem levantado preocupações ambientais e sociais, desconsideradas devido as oportunidades do negócio. A Alemanha mesmo pagando valores acima do mercado pelo gás estadunidense, é um dos maiores fiadores do projeto. Isto tornaria a Venture Global o maior fornecedor individual de GNL para a Alemanha. O projeto é alvo de ambientalistas, que por meio de 170 membros da comunidade científica enviaram uma carta ao presidente Biden solicitando o cancelamento da licença do terminal e o encerramento de projetos de GNL. Em ato associado, centenas de manifestantes marcharam contra a expansão das instalações de GNL da Venture Global.


Com isso, entendemos que a Alemanha vive uma contradição quando ao mesmo tempo busca por alternativas energéticas, promovidas pelo plano REPowerEU (março de 2022), com o objetivo de reduzir a dependência europeia dos combustíveis fósseis. O plano estabelece metas ambiciosas para 2030, incluindo a capacidade de produção de 10 milhões de toneladas (Mt) de hidrogênio verde e a importação de 10 Mt adicionais. O plano também procura diversificar fornecedores de gás natural no volume de 130 milhões de metros cúbicos por dia. As possibilidades de obter hidrogênio verde do Brasil e do Chile tem incentivado o financiamento de pesquisa e inovação na América do Sul pelo governo Alemão. Um exemplo é o Projeto HYPAT desenvolvido pelo Instituto Fraunhofer ISI, que criou o primeiro atlas de hidrogênio do Brasil.


Esses desafios de infraestrutra e dualidades energéticas, somados aos impactos no PIB alemão, são também resultados da geopolítica global e a falta de empreendedorismo do Estado. Outro exemplo disso, se origina no setor ferroviário, que vem sofrendo com constantes paralizações e greves, causando prejuízos que associam os problemas de energia também para a mobilidade do país. Os passageiros sofrem regularmente com atrasos prolongados e cancelamentos, em um ambiente de constantes disputas trabalhistas.


A Deutsche Bahn (DB) opera a maioria das ferrovias da Alemanha. Embora seja um ativo estatal, a empresa se desenvolve pela lógica do modelo privado. Por isso, terceiriza serviços para subcontratados, por meio de licitações, dando foco na busca de lucratividade com a redução de custos. A DB é uma empresa que recebe financiamento público, subsídios estatais e opera num setor com destacada característica monopolista. A principal pergunta que se impõe ao Estado alemão é: o que acontece com o setor ferroviário também pode acontecer com o setor de gás natural? Em se tratando de duas indústrias dependentes quase que exclusivamente de novas infraestruturas, paralisações no setor de gás podem causar problemas ainda maiores para o país.


Recentemente, o chanceler alemão, Olaf Scholz, defendeu que a Europa deve investir na produção em grande escala de armamentos. Especialistas da geopolítica, de fora do país, afirmam que a estratégia alemã será incentivar a indústria de armas, como uma ação anti-cíclica à crise econômica. Como consequência, o país deve manter suas relações energéticas com os Estados Unidos, incentivando a importação de GNL, mesmo sendo o gás da Rússia uma solução de ofertante mais racional.

70 visualizações2 comentários

2 Comments


Muito interessante saber mais sobre o mercado de um país exemplo na transição energética

Like

Muito boa análise!

Like
bottom of page