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110 anos de Ignacio

Atualizado: 20 de mar.

Ignacio de Mourão Rangel teria completado ontem (20) seus 110 anos de vida. Mas, suas ideias permanecem.


Maranhense de Mirador, município hoje com pouco mais de 20 mil habitantes, Rangel percorreu, com suas ideias, espaços que conjugados seriam incomuns para um mesmo cidadão. Militou com arma na mão; participou do partidão; andou pelos corredores do poder; foi boca aos ouvidos de presidentes da república; produziu análises técnicas em banco de desenvolvimento por décadas; ajudou a editar leis importantes que formaram as empresas que foram base do forte processo de desenvolvimento nacional; escreveu em colunas das grandes gazetas; deixou obras importantes com suas análises empíricas sobre a realidade nacional; e, ao mesmo tempo, teve a façanha de conseguir criar uma categoria própria de pensamento econômico que não se enquadra entre os chamados ortodoxos e heterodoxos, tão pouco na dicotomia estruturalista e monetarista, e também faz desuso à macro e microeconomia, o que ele nunca citou como base das suas análises. Debater com a CEPAL, onde se especializou, lhe custou a ausência de seus estudos nos arquivos dessa comissão econômica. Seu nacionalismo era empírico, livre de dogmas e paradigmas, mas extremamente anti-imperialista como enfatiza Armem Mamigonian (89), seu discípulo mais fiel. Negou cargos no alto-escalão de governos porque sabia dos limites e caminhos necessários para a revolução na periferia.


Para compreender o processo de transição dos modelos de produção no Brasil deixou como legado a teoria da dualidade básica que o levou da formação em direito, como filho de juiz, a sentar nas cadeiras de economia do Rio de Janeiro. Identificou como ninguém o caráter da Via Prussiana brasileira, uma teoria leninista e usou o conceito de formação social e totalidade de K. Marx sem destacar como bandeira ideológica esses importantes autores. Rangel sabia como caminhar na colônia e entendia que a dinâmica interna nacional soube reagir à Portugal e à Inglaterra, mas tinha seus desafios para lidar com os Estados Unidos o que explica os golpes de 1964, de 2016 e a tentativa, que não deu certo, em 2023.


Distanciou-se do "diálogo comum" da esquerda ao ler a realidade, que entre seus principais posicionamentos, o que levou a julgamentos indevidos a partir de núcleos progressistas, colocava a incapacidade de realizar uma reforma agrária, pois ela iria contra o monopólio da terra no período de forte industrialização derivada de pactos de poder; enxergava a inflação como um mecanismo de defesa da crise que com o oligopólio da agroindústria seria um fenômeno associado ao problema de demanda e, como consequência, também à taxa de exploração sobre os trabalhadores, diretamente relacionado à estrutura desigual do país com a renda e a demanda revelando proporcionalidade direta; e levantou a bandeira da transferência da exploração de serviços de utilidade pública para o capital privado interno, diante da "falência" do Estado, ignorando o debate inócuo, no campo abstrato, entre estatistas e privatistas.


Mas quem sou eu para falar de Rangel?! Em breve, escritos de A. Mamigonian irão contemplar livro da UFSC sobre os intérpretes brasileiros a partir das diversas visões econômicas da realidade nacional. Nele será detalhado o porquê de Rangel ser o "mais criativo e original analista do desenvolvimento econômico brasileiro", título do capítulo, o que enfatiza a importância das suas vivas ideias, perigosas conforme cita o Prof. Armen (Mamigonian, 2019), justamente por serem "avançadas, anti-imperialistas, mais socialistas, mais nacionalistas". Ele sabia como o Brasil cresceu de 1930 a 1980 e previu a crise depois desse período, tendo em sua cachola os antídotos para a longa recessão (1973-2023), ao não negar a teoria dos ciclos e enxergar os diversos limites inerentes ao capitalismo.


Sua grandeza é enfatizada, quando Luiz Carlos Bresser-Pereira e Maria Conceição Tavares - em 2014 na homenagem ao centenário de Rangel, evento organizado pelo Centro Celso Furtado e coordenado por Roberto Saturnino Braga - afirmaram a complexidade de compreensão do pensamento desse bolchevique que possui uma teoria econômica singular sobre o Brasil, em sua destacada "solidão intelectual".



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